Filig 2015 | Festival Internacional de Literatura Infantil de Garanhuns

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É difícil publicar para crianças? Com a palavra Annete Baldi e Renata Nakano

Uma das novidades do Filig este ano é a participação de editores no evento, possibilitando que o público conheça o papel deles na produção literária e os desafios do mercado de livros infantis. Para falar sobre o assunto, o Filig convidou as editoras Annete Baldi da Projeto do Rio Grande do Sul e Renata Nakano da Pitanga Editorial, do Rio de Janeiro, que participaram na tarde de domingo (18) da mesa-redonda “A difícil arte de publicar poesia para crianças”. Duas editoras e seus olhares para o mercado editorial brasileiro. Veja o que elas falaram:

Filig – Quais os desafios de publicar para criança?

Annete Baldi – Originalidade para trazer algo novo e instigante em meio a uma grande oferta.

IMG_8151Renata Nakano – São muitos. Para mim, o maior são as convenções e verdades estabelecidas sobre o que é a infância. As pessoas tendem a vê-la como uma categoria bem fechada. Ninguém diz que adulto gosta disso ou daquilo. Mas para a criança, tudo é determinado. O que ela gosta, e também o que ela entende. Todo mundo sabe dizer: “Isto é (ou não) adequado (ou compreensível) para criança.” Isso estabelece uma clara hierarquia entre o adulto, o ser que deteria o conhecimento, e a criança, que deveria ser guiada pelo adulto para o futuro melhor. Futuro baseado nas memórias desse adulto, recortadas de uma infância que não existe mais. Ou de experiências pessoais com filhos e sobrinhos. Isso tudo gera uma série de convenções que se refletem no mercado, seja nas livrarias ou na escola. Acredito que o maior desafio do editor de LIJ é romper com esses estigmas, publicando obras ousadas e com potencial transformador, que são também sustentáveis (e mais que isso: rentáveis) do ponto de vista econômico. Para isso é preciso entender essas convenções, para subvertê-las.

Filig – Qual o panorama do mercado editorial infantil brasileiro?

Annete Baldi – Momento delicado. Temos uma produção de muita qualidade que sofre falta de espaço em livrarias e também estamos buscando alternativas de reposicionamento devido aos cortes nos programas de leitura do governo.

Renata Nakano – Estamos vivendo uma crise muito dura na área de literatura infantil. Na última década, muitas editoras de estrutura pequena ou média surgiram, publicando projetos ousados e inovadores. Isso aconteceu pela demanda regular gerada por programas de governo em diferentes escalas. Como a seleção de títulos para esses programas se dava por um caráter qualitativo, gerou um amadurecimento no mercado, e grandes escritores e ilustradores surgiram. Após 15 anos, um dos maiores desses programas, o PNBE, foi suspenso. Com isso, muitas editoras que dependiam dessas vendas foram obrigadas a reduzir drasticamente seu quadro de funcionários e lançamentos. Muitas fecharam as portas. Isso porque é difícil para as pequenas competir em outros mercados com as grandes. Nas livrarias, preponderam livros de obras licenciadas, baseadas em desenhos animados. Afinal, pelo tempo que a criança brasileira passa em frente à TV, é natural ela buscar pelo que lhe é familiar. Já no mercado escolar, as grandes editoras contam com uma máquina de divulgação, de alto investimento inicial e retorno a longo prazo. Dois pontos (investimento inicial e fluxo de caixa) que as menores não têm. Com isso, caso esses programas não voltem, vejo uma mudança dura, tanto na quantidade de profissionais qualificados envolvidos na área, quanto na diversidade e principalmente qualidade dos títulos lançados.

Filig – Quais as maiores dificuldades para um autor iniciante ingressar no mercado editorial infantil brasileiro?

Annete Baldi – No momento, as editoras estão reduzindo seus lançamentos para enfrentar a crise, o que dificulta mais a entrada de novos autores no mercado. Mas o principal é o autor conhecer o tipo de livro que uma editora publica antes de submeter o original para análise.

Renata Nakano – Acho que, em geral, a área de literatura infantil é bastante generosa — em comparação a outras — com novos autores. Porém, pelo estigma de ser considerada uma literatura inferior, vemos muitos originais de baixíssima qualidade chegando às editoras. O ideal seria o aspirante a autor se envolver mais na área antes de apresentar seus textos. Estudar, participar de eventos como o Filig, contratar leitores críticos para analisarem suas obras, enfim: investir na sua formação para, quando chegarem às editoras, estarem mais preparados para concorrerem com o volume de originais que chegam.

Filig – O que vocês estão achando do Filig trazer essa discussão sobre mercado editorial?

Annete Baldi – A poesia é a porta de entrada da criança para o mundo da literatura. Considero fundamental que uma editora que publica livros para crianças tenha em seu catálogo um espaço generoso para esse gênero.

Renata Nakano – Eu me senti muito feliz pela oportunidade e pelo convite. E achei inovador, pois o editor, quando é convidado a falar, em geral é para o público especializado, e não para o público geral. Além da questão mais óbvia da curadoria, esse profissional tem um papel importante no processo criativo do livro. Em especial na literatura infantil, pois muitas vezes ele é o único mediador entre dois autores da mesma obra, o autor da palavra e o autor da imagem. Há, porém carência de profissionais especializados, que trabalhem de modo consciente essa orquestra entre linguagens. Por isso, é uma alegria essa oportunidade que o Filig proporcionou do encontro de colegas, da troca de experiências entre diferentes profissionais e em especial do contato com o público- leitor, que pouco conhece sobre as particularidades dessa profissão — que tanto ajuda (ou atrapalha) na disseminação da literatura de qualidade.  O Filig, em sua segunda edição, não apenas percebeu o papel dessa figura como orquestrou, como um bom editor, o diálogo entre diferentes perfis de profissionais da cadeia criativa.

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