Palavra do Curador

As histórias de um povo

 

A tradição oral constitui um patrimônio imaterial da humanidade. Elas preservam na memória, na voz e em alguns registros escritos o que fomos e o que somos, ocupando um tempo e um espaço invisível e impalpável de nossas riquezas ameaçadas. Apesar dos massacres, das mutilações e distorções por questões éticas, estéticas, políticas e religiosas, a oralidade resiste e reafirma uma história de resistências. Mesmo sofrendo descaracterizações, o conto tradicional, a parlenda, as adivinhas, os trava-línguas e os mitos se moldam na tentativa de permanência e na adequação do nosso tempo.

É sabido que muitos conteúdos presentes na literatura oral são questionados hoje em dia. Mas acreditamos que é promovendo leituras críticas e abrindo um diálogo horizontal, que podemos explorá-las da melhor maneira possível. E não impondo nossa leitura e visão. É por isso que as histórias de um povo correm sempre o risco de se perderem no tempo.

Cresci ouvindo histórias da boca da minha mãe (sem ser pelos livros) e quase ou nenhuma delas eram da cultura indígena. Mas de alguma forma, os mitos e contos tradicionais desse povo chegaram até a mim. Sempre de forma especial e tocante me conectaram com a terra, com a natureza e com um espírito de liberdade e coletividade que eles cultivam até hoje, e que ecoam também em mim.

Ser curador de um festival internacional de literatura para a infância não é tarefa fácil. As escolhas deixaram de lado muitas produções fascinantes. Quando assumi esse papel na 2ª edição do Filig em 2016, trouxe “A Poesia, Rima e Prosa da Fantasia” como tema, porque percebia a necessidade de abordar as palavras poéticas, que nem sempre servem para a utilidade pedagógica na escola, mas que têm uma importância na formação literária dos alunos.

Desde muito tempo, os livros para a infância se tornaram literatura e deixaram de ser “paradidáticos”, apesar de ainda ser comum chamá-los assim. Por se tratar de arte literária, ela requer um mundo sensível, sem tantas tarefas a cumprir. Essa mudança é lenta e precisamos saber mudar a rota para construir, de fato, um país de leitores. Incentivar a leitura é deixar a mente no livre fluxo, sem barreiras no caminho, como o rio.

Na 3ª edição, trabalhamos a narrativa visual “Nas Entrelinhas das Imagens Narrativas”. Os livros ilustrados contam histórias sem palavras. E sua poética subjetiva nem sempre é explícita. São palavras que se traduzem pela forma, cor, textura e intenções reveladas a cada página, numa construção surpreendente e cheia de possíveis histórias. São verdadeiros achados para leitores iniciantes e fluentes, pois os códigos visuais também se multiplicam a cada nova leitura.

Em 2018, na 4ª edição do Filig, tenho a felicidade de reverenciar uma tradição oral e literária que é a essência de nossa brasilidade: a cultura Indígena, com o tema “Um Povo em Forma de Histórias”. Pernambuco é demarcado com várias aldeias e incríveis experiências em escolas indígenas, mas pouco sabemos delas. Não temos registro de autores indígenas na literatura para a infância em Pernambuco. Histórias cheias de mitos, belezas e mistérios foram abafadas durante muito tempo. O mundo cresce e vai se dando conta de suas riquezas. O que antes era dialogado apenas dentro da tribo, ganhou outros territórios, lindas impressões ilustradas em forma de livros e apresentações culturais. A partilha da sabedoria e conhecimento se espalharam para perpetuar uma tradição que se renova como a própria natureza. Agora, donos também da palavra em forma literária fora da aldeia, os indígenas assumem a autoria de suas obras publicadas e se tornam novamente referência literária no Brasil e no exterior. São muitos os escritores e ilustradores indígenas, e teremos alguns durante o festival tanto nos Ateliês de Criação para crianças e professores, como nas Conversas com o leitor. Os contos e tradições inspiraram muitos outros autores não-indígenas, mas que abriram caminhos para essa posição essencial na cadeia produtiva da literatura infantil.

É por isso que aprendemos a ler. Para ter voz e dar voz, para saber exigir, lutar e poetizar. Aprendemos a ler quando ouvimos os pais cantarem ou inventarem histórias. Aprendemos a ler para ser criança que sabe ver beleza e não se deixa crescer antes do tempo. Aprende-se a ler para ser o dono do jogo e aprender a jogar. E quanto mais aprendemos a ler, mais sabemos reconhecer o povo em forma de histórias que somos.

É uma alegria trazer para vocês e também para mim nossos “irmãos” índios que sabem ouvir, criar, inventar e poetizar seu cotidiano com tantas belezas da natureza. Não poderia falar de literatura oral sem começar pela origem de nossa riqueza. Mas ao reverenciar a tradicional e contemporânea produção literária da cultura indígena, tento sanar ainda o que fazem equivocadamente apenas no mês de abril nas escolas com a cultura tradicional de nosso povo. Eles têm muito para nos ensinar.

 

Luciano Pontes

Escritor, ilustrador, contador de histórias e curador do Filig.